Para o passo a passo da viagem, com trilhas e organização, o guia dos cânions de Cambará do Sul resolve. Aqui a pergunta é outra: de onde veio uma fenda dessas, no meio de um planalto de campos e araucárias?
Dois parques, uma mesma rocha
Os cânions mais famosos da região ficam em duas unidades vizinhas. O Fortaleza está numa área contígua, dentro do Parque Nacional da Serra Geral. O Itaimbezinho fica no Parque Nacional de Aparados da Serra, criado oficialmente em 17 de dezembro de 1959. Juntos, os dois parques somam cerca de 30 mil hectares.
Os nomes vêm da geologia. As duas unidades estão inseridas na Formação Geológica Serra Geral.
Lava que virou parede
A rocha aqui é vulcânica. Ela pertence à Grande Província Ígnea Paraná-Etendeka, agrupada localmente no Grupo Serra Geral, dividido em quatro formações de lava: Torres, Vale do Sol, Palmas e Esmeralda.
Sucessivos derrames de basalto deram origem ao Planalto Meridional do Brasil. Depois, o supercontinente Gondwana começou a rachar, separando a América da África. Os cânions são uma cicatriz dessa história.
Como a serra recuou
Depois da lava, veio o trabalho lento da tectônica e da erosão. Estudos descrevem os Aparados como um dos sistemas de escarpas mais altos do litoral brasileiro e um dos principais vestígios da separação dos continentes. Com o tempo, a borda do planalto foi recuando para o interior. Na praia de Torres, no litoral, ainda restam testemunhos desse recuo e do sistema de falhas que soergueu os basaltos.
Por isso a distância surpreende. Os Aparados ficam entre 25 e 30 km do oceano em linha reta, e de parte do litoral sul catarinense dá para enxergar boa parte deles.
Itaimbezinho e Fortaleza: parentes, não gêmeos
O Itaimbezinho tem 5,8 km de extensão e de 600 a 2.000 metros de largura. Sua profundidade fica quase sempre em 600 metros e chega a 750 no ponto máximo, com o arroio Perdizes correndo no fundo. O nome vem do tupi-guarani e remete a pedras afiadas. As cachoeiras Véu de Noiva e Andorinhas despencam entre a vegetação.
O Fortaleza é o mais extenso. Segundo guias de turismo, tem 7,5 km de comprimento e trechos que chegam perto de 900 metros. O nome vem da parede vertical, que lembra a muralha de uma fortaleza. Nos dois, a borda do planalto está no Rio Grande do Sul, enquanto o fundo do vale fica em Santa Catarina.
Quem passou por aqui antes do parque
O território sempre foi habitado por povos indígenas, especialmente os Kaingang, que o usavam para caça, coleta e práticas culturais. Depois vieram fazendeiros e criadores de gado, atraídos pelos campos naturais. O impacto sobre a biodiversidade levou à criação da unidade de conservação.
Os tropeiros abriram caminhos que desciam os Aparados, e a Serra Velha, hoje Serra da Rocinha, era rota rumo ao litoral. Foram eles que deram o nome: as encostas verticais pareciam cortadas a faca.
Floresta na neblina
O parque reúne Mata Atlântica, floresta de araucária, campos e penhascos, com papagaios-de-peito-roxo, jaguatirica e leão-baio. Nas bordas do planalto aparece a matinha nebular, batizada assim pela frequência dos nevoeiros.
Na primavera e no verão, andorinhas e andorinhões migratórios chegam para fugir do inverno do hemisfério norte, e o ICMBio avisa que não dá para prever quando a neblina se forma.
O que vimos no Fortaleza e no Itaimbezinho
No Fortaleza, a sensação foi surreal. Parece que a gente está no céu, quase em contato com Deus. As nuvens vão subindo pelo cânion, passam por nós e seguem, e a paisagem aparece e some.
No Itaimbezinho também pegamos neblina, mas ela abre logo. Fecha, abre, fecha de novo. Quando abre, dá para ver a vegetação cobrindo os paredões, e é lindo. Nos dois lugares ficou a impressão de uma energia difícil de explicar. Saber que aquilo é lava antiga, esculpida por milhões de anos de erosão, só aumenta o respeito.

Vale a visita?
Vale, e muito, principalmente para quem gosta de entender o que está vendo. Se decidir ir, o roteiro prático pelos dois cânions reúne o que você precisa para planejar a viagem.
Texto de Matheus Ferreira, do Mileve Travel, com base em experiência pessoal em Cambará do Sul.
Fontes:
- ICMBio, Guia do visitante: https://www1.icmbio.gov.br/parnaaparadosdaserra/guia-do-visitante.html
- SIGEP, Itaimbezinho e Fortaleza: https://www.sigep.eco.br/sitio050/sitio050.pdf
- WikiParques: https://www.wikiparques.org/wiki/Parque_Nacional_de_Aparados_da_Serra
- Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_de_Aparados_da_Serra
- ParqueNacional.net: https://www.parquenacional.net/parque-nacional-de-aparados-da-serra/
- Viagens e Caminhos: https://www.viagensecaminhos.com/canyons-de-cambara-do-sul-rs/








