Quem gosta de parques sabe que, muitas vezes, a viagem começa pela atração — e não pelo destino.
Primeiro surge a vontade de conhecer uma montanha-russa, visitar uma nova área temática ou levar as crianças para encontrar personagens que elas adoram. Depois vêm as outras decisões: qual cidade escolher, onde se hospedar, quantos dias ficar e o que mais incluir no roteiro.
Esse comportamento, tão familiar para quem acompanha o universo dos parques, aparece agora também nos números. Um levantamento da Civitatis, divulgado pela Panrotas, mostra um crescimento expressivo nas reservas feitas por brasileiros para destinos ligados a grandes parques temáticos entre janeiro e agosto de 2026.
No Brasil, Penha, cidade catarinense onde está localizado o Beto Carrero World, registrou alta de 776% nas reservas realizadas pela plataforma. No exterior, Orlando cresceu 99% e as reservas relacionadas à Disneyland Paris avançaram 24%.
Mais do que comparar percentuais, os dados ajudam a enxergar uma transformação importante: o parque deixou de ser apenas um passeio dentro da viagem. Para muitas famílias, ele se tornou a razão para viajar.
Penha foi o grande destaque do levantamento
O resultado que mais chama a atenção vem de Penha, no litoral de Santa Catarina.
O crescimento de 776% está relacionado à entrada dos ingressos do Beto Carrero World no portfólio da Civitatis. Isso significa que o percentual se refere especificamente às reservas realizadas dentro da plataforma — e não que o número total de turistas em Penha tenha aumentado nessa mesma proporção.
É uma diferença importante, principalmente porque percentuais tão elevados podem dar margem a interpretações equivocadas.
Ainda assim, o resultado não deve ser ignorado. Ele revela o tamanho do interesse por experiências relacionadas a parques e mostra como uma atração desse porte pode ampliar a presença de um destino no planejamento de viagem dos brasileiros.
Para muitas famílias, Penha não é escolhida primeiro para, depois, o Beto Carrero World ser acrescentado ao roteiro. O caminho costuma ser justamente o contrário: a vontade de conhecer o parque leva à escolha de Penha e, a partir daí, à descoberta de suas praias, restaurantes e cidades vizinhas.
É nesse ponto que um parque ultrapassa seus próprios portões e começa a influenciar todo o destino.
O visitante do parque também movimenta a cidade
Uma viagem ao Beto Carrero World dificilmente envolve apenas a compra do ingresso.
Quem vem de outra cidade precisa encontrar hospedagem, decidir como chegar ao parque, escolher onde fazer as refeições e, dependendo do tempo disponível, procurar outras atividades na região.
Na prática, o movimento gerado pelo parque alcança hotéis, pousadas, restaurantes, motoristas, agências de turismo, lojas e diferentes prestadores de serviços. Também pode beneficiar municípios próximos, como Balneário Camboriú, Piçarras, Itajaí e Navegantes, que muitas vezes aparecem no mesmo roteiro.
O parque tem força para trazer o visitante. O desafio do destino é fazer com que ele permaneça mais tempo, conheça outros lugares e encontre bons motivos para voltar.
Para isso, não basta contar com uma grande atração. É preciso pensar em transporte, sinalização, atendimento, hospedagem, divulgação e integração com as demais experiências da região.
Novos investimentos podem aumentar essa influência
O crescimento das reservas acontece em um momento importante para o Beto Carrero World. Em 2026, o parque anunciou um plano de aproximadamente R$ 2 bilhões em investimentos para os próximos quatro anos.
O projeto prevê novas áreas temáticas, atrações, três hotéis e uma nova montanha-russa, apresentada como a mais cara já adquirida no Hemisfério Sul.
Se esses investimentos se concretizarem como anunciado, o impacto não ficará restrito ao interior do parque. Novidades desse porte geram curiosidade, renovam o interesse de quem já visitou e criam novos motivos para viajar.
Esse é um ponto essencial no setor de entretenimento: mesmo um parque já conhecido precisa continuar oferecendo razões para que o público retorne.
Orlando segue mostrando a força dos parques
Fora do Brasil, Orlando praticamente dobrou suas reservas na Civitatis, com crescimento de 99%.
O dado ganha ainda mais relevância porque aparece na contramão de outros destinos urbanos dos Estados Unidos, que registraram retração entre os viajantes brasileiros no mesmo período.
Orlando, porém, nunca foi apenas uma cidade com parques. Ao longo dos anos, ela se transformou em um destino organizado ao redor deles.
Hotéis, outlets, restaurantes, serviços de transporte e inúmeras atrações cresceram acompanhando o fluxo gerado pelos grandes complexos de entretenimento. Em muitas viagens, todo o roteiro é definido de acordo com os dias reservados para Disney, Universal, SeaWorld e outros parques da região.
Na Civitatis, o ingresso do Universal Orlando liderou as reservas dos brasileiros, seguido por experiências no SeaWorld Orlando e no Centro Espacial Kennedy.
Quem viaja para Orlando geralmente não está apenas procurando um lugar para descansar. Está buscando experiências muito específicas, que começam a ser imaginadas e planejadas meses — às vezes anos — antes do embarque.
Disneyland Paris une dois tipos de viagem
A Disneyland Paris também aparece com destaque no levantamento. As reservas de brasileiros cresceram 24% em 2026 e, pelo segundo ano consecutivo, o complexo foi a atividade mais reservada por esse público na plataforma.
Nesse caso, o parque se beneficia de uma combinação especialmente atraente: o visitante pode incluir a experiência Disney em uma viagem que também envolve os museus, monumentos, bairros históricos e a gastronomia de Paris.
Para quem já está na capital francesa, visitar a Disneyland pode representar um passeio de um ou mais dias. Para outros viajantes, porém, o parque entra no planejamento desde o início e influencia até mesmo a quantidade de noites reservadas na região.
Mais uma vez, a atração não aparece apenas como algo a fazer quando sobra tempo. Ela participa da construção do roteiro.
Afinal, o que é turismo de experiência?
O turismo de experiência está ligado ao desejo de viver algo marcante, e não apenas de conhecer um lugar.
Nos parques temáticos, essa ideia aparece de forma bastante clara. O visitante não quer somente observar um cenário. Ele quer entrar naquele universo, experimentar atrações, assistir aos espetáculos, encontrar personagens e dividir esses momentos com a família ou os amigos.
Existe também uma forte carga emocional. Uma visita pode representar a realização de um sonho de infância, a primeira montanha-russa de uma criança, uma comemoração ou uma lembrança que será retomada por muitos anos.
É por isso que parques conseguem motivar deslocamentos tão grandes. As pessoas não viajam apenas para estar fisicamente naquele espaço. Elas viajam pelo que esperam sentir quando chegarem lá.
Uma oportunidade para os destinos brasileiros
O desempenho de Penha mostra que os parques podem ocupar um papel cada vez mais relevante no turismo brasileiro.
O país já possui parques temáticos, aquáticos e atrações capazes de provocar viagens. O potencial está em transformar esses empreendimentos em parte de uma estratégia mais ampla, conectando-os à hotelaria, à gastronomia, à cultura e às demais possibilidades de cada região.
Isso exige diálogo entre parques, poder público, empresas e organizações de turismo. Quanto mais fácil for montar a viagem completa, maior será a chance de o visitante permanecer no destino e circular por outros atrativos.
Também exige divulgação constante. Muitas famílias ainda desconhecem a variedade de parques existentes no Brasil ou não encontram, em um só lugar, informações suficientes para organizar a visita.
Os números da Civitatis não contam toda a história do turismo de parques — até porque representam somente as vendas realizadas dentro da própria plataforma. Mas ajudam a confirmar algo que já percebemos há algum tempo: parques têm força para colocar destinos no mapa e influenciar escolhas de viagem.
A pergunta para o setor talvez seja justamente esta:
Como transformar uma visita em uma experiência tão desejada que faça o turista escolher o destino inteiro por causa dela?
Fonte dos dados: levantamento da Civitatis sobre reservas realizadas por brasileiros entre janeiro e agosto de 2026, divulgado pela Panrotas.








